A cultura da positividade tóxica no ambiente de trabalho: quando o “bom humor” adoece
- 22 de mar.
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Existe um discurso silencioso, e perigoso, que vem ganhando espaço nas organizações: a exigência de positividade constante. Disfarçada de “bom clima”, “energia boa” e “espírito colaborativo”, essa imposição afasta o sujeito da própria verdade emocional. Em um primeiro olhar, parece inofensivo: quem não quer trabalhar em um ambiente leve e agradável? Mas a questão está naquilo que se exclui para manter essa fachada. A dor, o conflito, a dúvida, o desconforto, tudo aquilo que não se encaixa na estética da leveza passa a ser reprimido. E o que é reprimido, como nos ensina Freud, retorna. Sempre.
A positividade tóxica funciona como um verniz. Ela organiza discursos, mas não estrutura vínculos reais. Em muitos times, falar de sobrecarga emocional, de frustração ou de desalinhamento é imediatamente interpretado como “falta de espírito de equipe”. Assim, aos poucos, os afetos vão sendo interditados. E a única emoção permitida é a alegria. Só que essa alegria é performática. Ela serve mais à manutenção da imagem institucional do que à saúde subjetiva dos colaboradores. E essa é uma das formas mais sofisticadas de adoecimento emocional nas empresas hoje.
Psicanaliticamente, podemos compreender essa lógica como um recalque coletivo. O afeto negativo não tem permissão simbólica para existir. Então ele se desloca, para o corpo, para o cinismo, para o absenteísmo, para os passivos-agressivos. As empresas começam a adoecer de dentro para fora, sem entender exatamente por quê. Criam comitês, contratam palestras, fazem campanhas. Mas não escutam. E é na escuta, e só nela, que o sofrimento pode emergir e ser elaborado.
É fundamental que os líderes compreendam que a escuta emocional não é oposta à produtividade, ela é condição para que a produtividade seja sustentável. O colaborador que pode dizer o que sente, dentro de um espaço de confiança, é aquele que desenvolve autonomia psíquica, senso de pertencimento e segurança simbólica. Já o colaborador que aprende que sua angústia é um incômodo se torna, aos poucos, um profissional anestesiado. Ele cumpre metas, mas desconectado do próprio desejo. E isso, cedo ou tarde, aparece nos indicadores.
Desconstruir a cultura da positividade tóxica não significa valorizar o caos, nem instituir permissividade emocional. Significa reconhecer que um ambiente saudável é aquele que autoriza a complexidade dos afetos. Que entende que conflitos não são sinais de fracasso, mas de vida. Que entende que angústia não é problema individual, mas efeito do coletivo. E que se responsabiliza por escutar isso, mesmo quando é desconfortável.
A psicanálise oferece ao mundo corporativo uma lente potente para observar esses fenômenos. Não para patologizar, mas para sustentar uma escuta radical. Aquela que não julga, não simplifica e não oferece soluções rápidas. Mas que permite que o sujeito, e o coletivo, encontrem novos sentidos. Porque empresa nenhuma evolui sem verdade. E não há verdade sem afetos contraditórios.
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