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Quando o ‘eu profissional’ vive sem o ‘eu pessoal’

  • 22 de mar.
  • 2 min de leitura

Há uma tendência contemporânea de dividir o sujeito em partes: a que trabalha, a que sente, a que descansa, a que se relaciona. Essa cisão, embora pareça funcional, é uma das grandes fontes de sofrimento psíquico da atualidade. Tentamos vestir o “eu profissional” pela manhã e deixá-lo pendurado na cadeira ao final do expediente, como se o inconsciente respeitasse horários comerciais.

 

A psicanálise, no entanto, nos lembra que o sujeito é um só. O mesmo que se angustia diante de uma decisão no trabalho é aquele que, em casa, busca entender sua dificuldade de estar em presença. A divisão entre “vida pessoal” e “vida profissional” é uma tentativa de organizar o caos, mas, no fundo, escancara o desejo de controlar o incontrolável: a complexidade de ser quem se é em todos os espaços. 


Quando o trabalho ocupa o centro da identidade, o sujeito corre o risco de reduzir-se à sua função. É o profissional que se apresenta antes do nome, que se define por resultados, cargos e títulos, mas que se perde quando não há mais metas a bater. A ausência de sentido fora do campo da produtividade revela uma fragilidade psíquica: a de ter depositado todo o valor de si no olhar do outro, geralmente o olhar corporativo, o olhar da aprovação. 


Freud já dizia que o trabalho é uma das formas mais civilizadas de sublimação do desejo, mas também pode ser uma armadilha. Quando o sujeito se aliena de si para pertencer a uma engrenagem, a psicanálise convida a pergunta: “de que desejo o meu trabalho é resposta?”. Esse questionamento desloca o foco da performance para o sentido, da entrega para o porquê da entrega. 

Integrar o “eu que trabalha” e o “eu que vive” não é um exercício de produtividade, mas de consciência. É reconhecer que o sujeito que negocia prazos é o mesmo que negocia afetos, que o modo como se relaciona com tarefas é semelhante ao modo como se relaciona com pessoas. Não há dois mundos, há uma continuidade entre o que se sente e o que se faz. 


A escuta analítica propõe que, ao invés de tentar equilibrar duas vidas, o sujeito possa reconhecer que só há uma, e que ela exige espaço para o desejo, para o descanso, para o não saber. Quando o “eu profissional” encontra o “eu pessoal”, emerge o que há de mais humano: a possibilidade de existir inteiro, mesmo dentro das exigências do mundo. 

 
 
 

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