A ilusão da substituição e o drama do reconhecimento
- 22 de mar.
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Muito se fala hoje sobre pertencimento, visibilidade e valorização. Mas há um afeto que atravessa quase todas as esferas do sujeito, da vida amorosa à profissional, e que raramente é nomeado com clareza: o medo de ser substituível. Não apenas dispensado, mas trocado. Esquecido. Excluído do desejo do outro como se nunca tivesse existido.
Na escuta clínica, esse medo aparece nos silêncios mais resistentes. Ele se revela na hipervigilância do profissional que precisa estar sempre disponível, no parceiro que não tolera o tempo do outro, no líder que centraliza tudo para não perder relevância. A substituição é vivida como apagamento subjetivo. E, por isso, dói. Mas o ponto mais importante é que essa dor costuma estar menos ligada à realidade do mundo, onde, de fato, há trocas e reposições, e mais vinculada à estrutura narcísica de quem não suporta não ser insubstituível.
A psicanálise não trabalha para garantir ao sujeito que ele será único. Ao contrário: ela desmonta essa fantasia. Ensina que não somos centrais no desejo do outro, e que isso não nos desvaloriza, nos liberta. Porque desejar ser insubstituível é desejar ser tudo para o outro. E ser tudo é justamente o que impede qualquer relação simbólica, qualquer laço ético, qualquer espaço para alteridade.
Só é possível se manter nos vínculos, pessoais, afetivos ou profissionais, quando se aceita que o outro tem falta. E que, portanto, a nossa presença ali é um encontro, não uma ocupação. Quem precisa sentir-se insubstituível ainda não se autorizou a existir para além da função que ocupa no desejo alheio.
O sujeito que se analisa não busca garantir lugar. Busca reconhecer que pode se sustentar mesmo quando o lugar lhe falta. E isso, paradoxalmente, é o que o torna mais presente nos laços que constrói. Porque não há vínculo verdadeiro onde se vive como peça, nem amor possível onde se vive como produto.
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